A casa do cinema brasileiro, um templo da sétima arte. Estas são algumas das expressões que costumam qualificar a simples menção do nome do Cine Brasília. Um cinema que é muito mais do que um cinema e que completa 62 anos de existência no próximo dia 22 de abril. Para celebrar, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do GDF concebeu a Maratona de Filmes, com uma seleção de seis dentre os títulos mais marcantes da história do lugar. Os filmes serão exibidos no Cine Brasília, em sessões únicas, gratuitas, que começam às 10h e seguem até as 21h. A curadoria é de Carmem Moretzsohn e Gioconda Caputo, jornalistas e produtoras culturais, atendendo a um convite do Coordenador de Audiovisual da SECEC, Douro Moura.

A Maratona de Filmes foi concebida para contemplar espectadores de todas as idades. A começar por “Tainá – A Origem”, de Rosane Svartman, que abre a programação, em sessão matutina, dedicada aos alunos de escola pública e a crianças e jovens em geral. Este é o terceiro filme da série que, em linguagem de aventura, toca em temas relevantes para a questão indígena e para o meio ambiente no Brasil.

Uma sessão histórica de homenagem apresentará a comédia norte-americana “A canoa furou”, de Norman Taurog, protagonizada por Jerry Lewis. O longa-metragem foi o primeiro filme projetado na noite de inauguração do Cine Brasília, que contou com a presença de JK.

Primeiro filme de Brasília premiado como Melhor Filme pelo Júri Oficial do Festival de Brasília, “Louco por cinema”, de André Luiz Oliveira, é o terceiro filme da programação. O longa-metragem apresenta a loucura como uma aventura interior e grande parte do elenco é formada por atores de Brasília, que dividiram o Candango de Melhor Ator Coadjuvante no 27º Festival de Brasília. O filme ainda conquistou os prêmios de Melhor Diretor (que André Luiz Oliveira dividiu com Sérgio Bianchi) Melhor Ator, para o protagonista Nuno Leal Maia, e melhor música original.

Um realizador que não poderia faltar em se tratando de cinema em Brasília é Vladimir Carvalho, um dos maiores documentaristas brasileiros, um paraibano que escolheu Brasília como sua cidade. O cinema de Vladimir estará presente com o marcante “Barra 68 – Sem perder a ternura”, filme que recupera a história da criação da Universidade de Brasília, a perseguição que ela sofreu pelo regime militar e sua invasão pelas forças militares e policiais, em 1968. O filme foi premiado no Festival de Brasília de 2002.

Também integra a programação “Bicho de sete cabeças”, de Laís Bodanzky. Filme antológico, premiado em várias categorias no Festival de Brasília, faz um alerta para a situação de descaso com que são tratadas as pessoas internadas em manicômios e instituições de recuperação públicas, destinados a qualquer um que não se encaixe nos padrões normais de comportamento ditados pela sociedade. A exibição do longa-metragem no Cine Brasília marcou uma guinada na carreira do ator Rodrigo Santoro. Logo na apresentação do filme na Mostra Competitiva do Festival de Brasília, quando subiu ao palco, Santoro foi vaiado e chamado de galã, por sua trajetória como ator de novelas. Mas após a exibição (e sua brilhante performance), o filme foi longamente aplaudido. Ao subir de novo ao palco para receber o prêmio de Melhor Ator, Rodrigo foi aplaudido de pé por vários minutos.

E fechando a seleção, uma homenagem ao cineasta Arnaldo Jabor, um dos mais importantes nomes do Cinema Novo, que faleceu em fevereiro último. A Maratona de Filmes vai exibir o memorável “Tudo bem“, que o próprio Jabor considerava seu melhor filme. Produção que faz uma alegoria à luta de classes no Brasil, “Tudo bem” integra a lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, elaborada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema – Abraccine.

 

UM POUCO DE HISTÓRIA

O Cine Brasília é um espaço que congrega, em sua origem, a ação dos criadores da capital brasileira. É um projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, integrado ao plano de Lúcio Costa em sua gênese e, dentro dessa edificação-monumento, o gênio criador de Athos Bulcão. A essa tríade soma-se o simbolismo da presença do presidente Juscelino Kubitschek – ainda que atrasado – na noite de inauguração, 22 de abril de 1960, para assistir à hilariante A Canoa Furou, de Norman Taurog, estrelado por Jerry Lewis, e que será exibido na mostra Maratona de Filmes. Um lugar que nasceu para ser grande.

O Cine Brasília é um dos poucos cinemas de rua que ainda restam no Brasil. Seu nome dá título à estação do metrô que fica em frente a ele. E sua história é feita de invenção. Nos anos 1960, o Cine Brasília acolheu filmes integrantes de movimentos culturalmente marcantes para a história do cinema no mundo, como a Nouvelle Vague francesa, o pós-neorrealismo italiano, e principalmente, o Cinema Novo brasileiro. Seus protagonistas ocuparam as telas do Cine Brasília, sobretudo depois que a sala se transformou em sede da Semana do Cinema Brasileiro, em 1965 e 1966, que viria a se tornar o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Pelas telas do Cine Brasília passaram títulos antológicos como A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965), de Roberto Santos, e O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, duas referências históricas importantes, a primeira do Cinema Novo, a segunda do Cinema Marginal. Além de Os Deuses e os Mortos (1970), de Ruy Guerra, Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues, Tenda dos Milagres (1977), de Nelson Pereira dos Santos, Tudo bem (1978), de Arnaldo Jabor, todos mestres fundadores.

Na década de 1980, Júlio Bressane foi onipresente, em filmes como Tabu (1981), Walter Lima Jr marcou presença com Inocência (1983), Carlos Alberto Prates, com Cabaré Mineiro (1982), e Suzana Amaral com A Hora da Estrela (85), torna-se a primeira cineasta mulher a ganhar um Candango de Melhor Filme.

Os anos 1990 assistem ao surgimento de filmes ovacionados pelo público como O Baile Perfumado (1996), de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, cuja estética receberia a denominação de “árido movie”, e Como Nascem os Anjos (1996), de Murilo Salles. Dois anos antes a cidade se veria literalmente na tela com o meteorito Louco Por Cinema (1994), de André Luiz Oliveira, produção, direção e elenco quase de Brasília, vencedor de todos os principais candangos do Festival.

A virada do século chega com o notável cinema feminino em filmes como Bicho de Sete Cabeças (2000), de Laís Bodanzky e, um pouco antes, Tata Amaral, com Um Céu de Estrelas (1997). E mais recentemente, as obras-primas Branco Sai, Preto Fica (2014), de Adirley Queiroz, Café Com Canela (2017), de Ary Rosa e Glenda Nicácio, e Temporada (2018), de André Novais Oliveira, abordando questões ligadas à temática negra, e A Febre (2019), de Maya Da-Rin, ficção com atores indígenas. Aos 62 anos, o Cine Brasília está na flor da idade.

PROGRAMAÇÃO E SINOPSES

10H00 – TAINÁ – A ORIGEM, Brasil, 2013, 80min, Livre

Direção: Rosane Svartman

Com: Wiranu Tembe, Beatriz Noskoski, Igor Ozzy, Anderson Bruno, Gracindo Júnior, Nuno Leal Maia, Guilherme Berenguer, Mayara Bentes

A floresta amazônica é invadida por piratas da biodiversidade e a jovem índia Maya (Mayara Bentes) acaba tornando-se vítima dos bandidos, deixando órfã a bebê Tainá. Abrigada entre as raízes da Grande Árvore (sapopemba), a criança é salva e criada pelo velho e solitário pajé Tigê (Gracindo Júnior). Cinco anos depois, ele leva Tainá (Wiranu Tembe) à aldeia do seu povo, onde está para ser escolhido o novo líder defensor da natureza. Por ser menina, Tainá é impedida de se apresentar ao combate, mas pela herança de Maya, a última das Amazonas guerreiras, e com o apoio de Laurinha (Beatriz Noskoski), esperta menina da cidade, e do índio nerd Gobi (Igor Ozzy), a indiazinha parte para derrotar os malfeitores, desvendando o mistério de sua própria origem.

Um filme de aventura, com ótimas interpretações, que oferece diversão para a família toda e contempla temas como biodiversidade, sustentabilidade e a questão indígena.

A cópia foi gentilmente cedida por Nilson Rodrigues, produtor associado do filme.

 

12H00 – A CANOA FUROU (Don’t give up the ship), EUA, 1959, 89min, Livre

Direção: Norman Taurog

Com: Jerry Lewis, Dina Merrill, Mickey Shaughnessy

No dia de seu casamento, anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o ex-oficial John Paul Steckler VII (Jerry Lewis) é procurado pelos oficiais da Marinha por ter extraviado o demolidor de navios USS Kornblatt. John é encarregado de encontrar a máquina, caso contrário terá que pagar por ela. Entretanto, sua esposa Prudence (Diana Spencer) não vai aceitar a ausência do marido logo no momento de sua lua de mel.

O filme comporá uma sessão histórica. A comédia foi a primeira a ser projetada no dia da inauguração do Cine Brasília, em 22 de abril de 1960, em sessão que contou com a presença do presidente Juscelino Kubistchek.

 

14H00 – LOUCO POR CINEMA, Brasil, 1996, 100min, 12 anos

Direção: André Luiz Oliveira

Com: Nuno Leal Maia, Denise Bandeira, Roberto Bomfim, Jairo Mattos, Guará Rodrigues, Eduardo Conde, Noemi Marinho, Jesus Pingo, Emerval Crespi, Dimer Monteiro, Bidô Galvão, Guilherme Reis, Renato Matos, Chico Sant’Anna, Miquéias Paz, B. de Paiva, Gê Martu, Andrade Jr, Alfredo Libório, Humberto Pedrancini, Graça Veloso, Jorge Du Pan, Francisco Lindolfo, Neio Lúcio, Rogero Torquato, Paulo Tovar, Kojak, Alfredo Libório, Leal Carvalho, Guilherme Coelho, Getúlio Cruz, Wilson Domingues

Nos anos 1970, o diretor de cinema Eugênio é encontrado morto nas filmagens de sua nova obra. Ao lado do corpo dele está o jovem Lula que, apresentando sinais de insanidade, é preso em um manicômio judiciário. Passados 20 anos, Lula retém as pessoas do manicômio e revela que só vai liberar os reféns quando tiver o direito de terminar o filme que Eugênio não conseguiu.

O filme foi lançado nos primeiros momentos da retomada do cinema brasileiro, após a canetada que, no governo Collor de Melo, pôs filme à Embrafilme, na década de 1990. Conquistou seis prêmios no Festival de Brasília de 1994, incluindo os de melhor filme e melhor direção. Em 1997, André Luiz lançou o livro “Louco por Cinema, arte é pouco para um coração ardente“, que relata a trajetória do roteiro do longa, uma breve autobiografia com o roteiro do filme.

A cópia do filme foi gentilmente cedida pelo diretor André Luiz Oliveira e pelo produtor Caetano Curi.

 

16H00 – BARRA 68 – SEM PERDER A TERNURA, Brasil, 2001, 82min,

Direção: Vladimir Carvalho

Narração: Othon Bastos

Filme histórico sobre a criação da Universidade de Brasília, as inovações que ela propunha, a perseguição que sofreu iniciada com o regime militar de 1964, até sua invasão pelo Exército Brasileiro em 1968. Narrado por Othon Bastos, conta com depoimentos de Oscar Niemeyer, Roberto Salmeron, Jean-Claude Bernardet, Ana Miranda, Marcos Santilli, Cacá Diegues, José Carlos de Almeida Azevedo e familiares de Honestino Guimarães, entre outros. O longa foi premiado nos festivais de Brasília, Fortaleza e Recife. A produção também foi selecionada nos festivais internacionais de São Paulo, Havana e Friburg (Suíça). A produção também resgata as repetidas agressões sofridas pela Universidade de Brasília, desde o golpe de 1964 até os acontecimentos de 1968, quando tropas militares ocuparam o campus da UnB. Naquela ocasião, prenderam e atiraram nos estudantes, sendo que 500 deles foram detidos numa quadra de esportes. A crise culmina no Ato Institucional nº 5, o AI-5, que fechou o Congresso Nacional.

Um dos maiores nomes do documentário no Brasil, Vladimir Carvalho chegou a Brasília em 1970 e decidiu se fixar na cidade. Como professor do curso de cinema da Universidade de Brasília, recebeu de um aluno, Miguel Freire, um filme em 16mm feito por Hermano Penna, com registro da detenção de 400 alunos da UnB, numa quadra de basquete do campus, durante a invasão de forças militares e policiais em 1968. O grande documentarista viu que aquele material filmado era precioso. Entre 1999 e 2000, Vladimir realizou as pesquisas e fez as entrevistas do que viria a ser Barra 68 – sem perder a ternura, um filme marcante em sua filmografia.

O diretor Vladimir Carvalho autorizou a exibição assim como cedeu a cópia do filme.

 

18H00 – BICHO DE SETE CABEÇAS, Brasil, 2000, 90min, 14 anos

Direção: Laís Bodanzky

Com: Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kiss

O filme conta a história de Neto (Rodrigo Santoro), um jovem que é internado em um hospital psiquiátrico após seu pai descobrir um cigarro de maconha em seu casaco. Lá, Neto é submetido a situações abusivas. O filme, além de abordar a questão dos abusos feitos pelos hospitais psiquiátricos, também aborda a questão das drogas e a relação entre pai e filho e as consequências geradas na estrutura da família.

Bicho de Sete Cabeças foi amplamente aclamado de um modo geral, recebendo vários prêmios e indicações, dentre eles, o Prêmio Qualidade Brasil, o Grande Prêmio Cinema Brasil e o Troféu APCA de “Melhor Filme”, além de ser o filme mais premiado do Festival de Brasília e do Festival do Recife. O filme abriu portas para uma nova maneira de pensar sobre as instituições psiquiátricas no Brasil, e em torno disso, foi aprovada pelo Congresso Nacional uma lei que proíbe a construção de instituições com características asilares, ou seja, as que não garantem os direitos fundamentais dos doentes mentais. Em novembro de 2015 o filme entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Sua exibição no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi antológica, marcando o reconhecimento do público ao talento do ator Rodrigo Santoro.

A exibição está sendo possível graças à diretora Laís Bodanzky e à produtora Gullane Entretenimentos que cederam a cópia do filme.

 

20H00 – TUDO BEM, Brasil, 1978, 120min, 14 anos

Direção: Arnaldo Jabor

Com: Fernanda Montenegro, Paulo Gracindo, Maria Sílvia, Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães, Zezé Motta, Stenio Garcia, Paulo César Pereio, José Dumont, Fernando Torres

Juarez (Paulo Gracindo) é o chefe de uma família de classe média, que está às voltas com uma obra no apartamento. Aposentado, ele está sempre cercado pelos fantasmas de seus amigos já falecidos. Elvira (Fernanda Montenegro), sua esposa, fica revoltada com a impotência de Juarez, o que faz com que acredite que ele tenha uma amante. Zé Roberto (Luiz Fernando Guimarães) e Vera Lúcia (Regina Casé) são os filhos do casal, ele um executivo oportunista e ela preocupada apenas em encontrar um marido. Junto com eles vivem duas empregadas: Aparecida de Fátima (Maria Sílvia), mística fervorosa, e Zezé (Zezé Motta), que trabalha como prostituta nas horas vagas. Juntos eles precisam lidar com as dificuldades da vida e os operários da obra, que estão sempre no apartamento.

Um filme destacado da obra de Arnaldo Jabor, um dos maiores cineastas brasileiros, recentemente falecido, “Tudo bem” faz uma brilhante crítica à classe média brasileira, indiferente ao ambiente social, diante do regime militar e do suposto milagre econômico. Apresenta as alegorias de um Brasil miscigenado e zomba, já a partir do título, da tão decantada e falsa “cordialidade” brasileira. Considerado um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, venceu o Festival de Brasília, além de premiar a grande Fernanda Montenegro com o prêmio de Melhor Atriz e Paulo César Pereio como Melhor Ator Coadjuvante. A exibição presta uma singela homenagem a Arnaldo Jabor.

A exibição foi plenamente autorizada por Carolina Jabor e está sendo possível graças à cópia cedida e ao apoio do Canal Brasil.

 

SERVIÇO:

MARATONA DE FILMES

Data: 22 de abril de 2022

Local: Cine Brasília

Horários: ver programação

ENTRADA FRANCA

Informações: (61) 3244.1660

Fonte: Objeto Sim

Fotos: Reprodução

 

Por: ASCOM VB
Data: 18/04/2022